Novos Vingadores: Tudo Morre | Como começar um quadrinho (e um blog)
- Felipe Pinheiro
- 6 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Toda jornada começa com o primeiro passo. Toda história em quadrinhos começa com a primeira página. E todo blog começa com o primeiro post.

Saber iniciar bem uma história é muito importante e está longe de ser algo fácil: o autor precisa introduzir os temas que irão permear o enredo, estabelecer o clima, a ambientação, apresentar seus personagens e não pode gastar páginas e páginas (e quadros e quadros no caso dos quadrinhos) para isso. Se alongar demais essa introdução, corre o risco de tornar a coisa toda maçante, esgotar a paciência do leitor e perdê-lo logo na largada. É preciso introduzir esses elementos, mas de um jeito elaborado e envolvente que prenda a atenção do público e o instigue a acompanhar a história até o final.
Um bom exemplo disso é a página de abertura de New Avengers #1 (no Brasil, Novos Vingadores #1), revista lançada em 2013 com roteiros de Jonathan Hickman e arte de Steve Epting, e que marca o início do longo período de Hickman escrevendo Novos Vingadores. É uma página de abertura que por alguns motivos funciona muito bem como introdução para tudo que viria a seguir na fase de Jonathan Hickman na revista.

A página é composta por cinco painéis e mostram um único personagem: Reed Richards. Não tem outros elementos na página que possam desviar a atenção do leitor, o foco está todo no Reed, sempre centralizado em todos os painéis. No primeiro painel não temos falas, apenas um Reed de olhos fechados e cabisbaixo em silêncio. Percebe-se que o personagem está preocupado, angustiado, com medo. Um clima sombrio e pesado fica estabelecido, reforçado pelo fundo totalmente preto e pelas sombras que cobrem parte do seu rosto e parecem continuar avançando sobre ele.
A ambientação e parte do enredo também começam a ser indicados nesse primeiro quadro pelas sombras: o que quer que aconteça, onde quer que aconteça, acontece em meio às sombras, às escuras, escondido. Em um único painel, já sabemos que algo muito grave está acontecendo.
Do segundo painel até o quinto e último, Reed fala sobre como “tudo morre”. A distribuição dos balões ao longo dos quatros painéis não é de forma alguma aleatória: junto com a transição de um painel para outro, a distribuição dos balões cria um ritmo de leitura e pausa que, reforçado pelos elementos visuais e pelo clima e ambientação já estabelecidos no primeiro painel, faz com que cada palavra ganhe peso, importância, e fiquem gravadas na mente do leitor. Dessa forma, Hickman apresenta o grande tema da história, a inevitabilidade do fim, de forma muito marcante.
É interessante perceber também como o autor coloca os leitores para participarem ativamente da cena, mesmo sem perceberem: são os leitores, que fazem as pausas na leitura, mas a narrativa induz os induz a associar essas pausas com o Reed. Porque a narrativa já mostrou que algo grave está acontecendo, mostrou Reed muito abalado e é por isso que ele está “falando” desse jeito tão grave.
Por fim, tem-se também algo que lembra um “movimento de câmera” ao longo de toda a página. No início, a “câmera” está fechada na expressão sombria do Reed. Depois, no segundo painel, ela se afasta ligeiramente quando Reed começa o discurso de tudo morre. A partir desse momento, a “câmera” se aproxima mais de Reed ao longo de cada painel até o fim da página.
Esse movimento não só ajuda que uma sequência de painéis idênticos, mostrando um único personagem que não faz nada além de falar tenha mais dinamismo, mas também adiciona junto com todos os outros elementos, um senso de urgência crescente ao longo de toda a página que atinge o pico no último painel, com os olhos do Reed em foco, dominando todo o espaço, olhando fixamente para os leitores e indicando a mudança de postura do personagem: de uma expressão de preocupação e derrota no primeiro painel, para um olhar de determinação no último.
Uma página, um personagem, cinco painéis e seis balões de fala. É disso que Jonathan Hickman precisa para apresentar a história que se estenderá nas mais de 30 edições de Novos Vingadores. E faz isso com ritmo e timing certos, domínio da narrativa e imersão dos leitores na história. Ao virar a página, o leitor já está convencido a acompanhar a história, para descobrir como tudo vai ocorrer e com um sentimento misto de apreensão/ansiedade por já saber que não está diante da típica história “o bem contra o mal” dos gibis de super-heróis. Bons quadrinhos mostram qualidade logo na primeira página e a abertura de Novos Vingadores #1 de Hickman e Epting cumpre bem esse objetivo.





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