Resenha | Sem Dó, de Luli Penna
- Felipe Pinheiro
- 7 de set. de 2021
- 3 min de leitura
A chegada da modernidade e de um amor proibido em uma cidade em transformação.

Quando começou a trabalhar em sua primeira história em quadrinhos, a ilustradora e cartunista paulistana Luli Penna pretendia contar a história do avô e do tio-avô, imigrantes espanhóis que chegaram na cidade de São Paulo no começo do século XX e se tornaram renomados arquitetos. Mas, ao conhecer a história das irmãs do avô, Luli decidiu mudar o projeto e colocar as mulheres da família como protagonistas. Assim surgiu a HQ Sem Dó, quadrinho publicado em 2017 pela editora Todavia e escrito e desenhado por Luli Penna, após sete anos dedicados a uma história sobre uma cidade em transformação, duas irmãs e um amor proibido.
A cidade é a São Paulo dos anos de 1920, que vive a plena modernização da arquitetura urbana, dos transportes, da música, da moda e do entretenimento, ao mesmo tempo que ainda convive com tradições familiares conservadoras. É nesse ambiente que vivem Lola e Pilar, as duas irmãs que, tal como a cidade, são o contraste de modernidade e tradição.

Lola é a modernidade; trabalha fora de casa como arrumadeira de uma família de elite, usa corte de cabelo curto (“símbolo da mulher moderna”) e consome vorazmente revistas dos mais variados assuntos. Pilar é a tradição; com penteado e roupas mais “comportadas", não trabalha e passa maior parte do tempo em casa se dedicando ao tricô e bordados.
O amor proibido é o de Lola e Sebastião. Após trocarem olhares e se conhecerem nas ruas de São Paulo, os dois se apaixonam e começam um romance às escondidas da família de Lola que, seguindo a tradição, arranjara o casamento dela com outro homem.
É através do romance de Lola e Sebastião que Luli Penna descortina a São Paulo dos anos 20. Ao colocar os personagens para passear pela cidade, a autora guia o leitor por uma São Paulo de bondinhos, edifícios art decó e lugares marcantes como a Estação da Luz, a Praça da Sé (com a catedral ainda em construção) e o Edifício Santa Helena, antigo lar de um dos principais cinemas da cidade na época.
As histórias de Lola, Sebastião, Pilar e os passeios por São Paulo são contadas por uma narrativa que homenageia um dos símbolos da modernidade do período: o cinema mudo. Como a própria autora já declarou, a narrativa de Sem Dó foi inspirada por “Limite”, filme mudo brasileiro de 1931 gravado por Maurício Peixoto. Luli Penna desenha a HQ com um traço marcante em preto e branco e utiliza enquadramentos que remetem aos filmes mudos do início do século. Apesar de não usar uma grade fixa no quadrinho, Luli utiliza em diversas páginas uma grade de 12 quadros, que “estendem” o tempo das páginas tal qual os takes longos das películas dos anos 20, tanto nos momentos dinâmicos quanto nos mais contemplativos da HQ.

A inspiração no cinema mudo também aparece na forma que Luli Penna dispensa o uso dos tradicionais balões de fala. Nas poucas vezes que falas são necessárias, Luli utiliza painéis pretos como os letreiros dos filmes mudos. Ao abrir mão das palavras, a autora desenvolve os personagens ao longo da narrativa dando destaque para detalhes e nuances de cada um deles: os sapatos das moças pisando para fora da casa, os chapéus que se tornam símbolos que os distinguem e, sobretudo, os olhares que os personagens trocam ao longo da história, recurso que Luli utiliza para construir as relações de intimidade entre eles.
Outro recurso narrativo que merece destaque em Sem Dó é a inserção de anúncios, propagandas e artigos de jornais e revistas da época ao longo da história, os outros únicos momentos em que Luli utiliza a palavra escrita na HQ. Mais do que contribuírem para a contextualização da época, ao representarem a crescente cultura da propaganda e consumo, os anúncios funcionam como resumos e dicas do desenvolvimento da trama (basta presta atenção neles).

Um dos textos de revista que Luli insere na trama é uma entrevista com o célebre diretor F. W. Murnau onde ele declara: “O cinema deve contar as suas histórias unicamente por meio de quadros”. E é exatamente o que Luli Penna faz em Sem Dó, inspirada pela história das tias-avós, ao criar uma narrativa que remete aos filmes dos anos 20 para retratar São Paulo sob os novos ares da modernidade da época, as mulheres que ali viveram e o que elas estavam dispostas a fazer para respirar esses ares.
Ficha Técnica:
Título: Sem Dó
Roteiro: Luli Penna
Arte: Luli Penna
Editora: Todavia
Páginas: 192





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