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Resenha | Berlim, de Jason Lutes

  • Foto do escritor: Felipe Pinheiro
    Felipe Pinheiro
  • 5 de nov. de 2021
  • 3 min de leitura

Sob a sombra crescente do nazismo, a vida acontece em um período de efervescência.


É um privilégio ler hoje as 592 páginas de Berlim, quadrinho escrito e desenhado pelo americano Jason Lutes e publicado no Brasil pela editora Veneta em 2020, sem precisar passar pelo período de 22 anos que separa o lançamento do primeiro capítulo da HQ, em 1996, da publicação do último capítulo em 2018. Mas, ao fim da leitura, Jason Lutes mostra que os 22 anos para concluir Berlim não só foram justificados, como valeram muito a espera.


Em Berlim, Lutes retrata a vida na capital alemã nos últimos anos da República de Weimar. Uma das capitais mais cosmopolitas da Europa no período, Berlim é um caldeirão efervescente em que grupos de todas as origens, culturas, classes e ideologias se encontram e se misturam nas ruas, becos e avenidas da cidade. E onde nazistas e comunistas confrontam-se com cada vez mais beligerância, fazendo da cidade um barril de pólvora prestes a explodir.

A Berlim de Jason Lutes. Cidade de Luz.

É nesse caldeirão que Lutes apresenta e situa a grande força de sua obra: seus personagens. Uma gama de figuras humanas, profundas nas suas personalidades, virtudes, contradições e anseios: Marthe Müller, uma filha de burgueses de Colônia que escapa da família para seguir o sonho de se tornar pintora na capital. Kurt Severing, jornalista que faz da máquina de escrever arma contra a radicalização política. A família Braun, cada vez mais separada pelas divergências ideológicas. O jovem judeu idealista David Schwartz e sua família, que tentam seguir com a vida em um ambiente cada vez mais hostil.


Ao longo da obra, acompanhamos as vidas desses personagens, como elas se desdobram e se entrelaçam na efervescência da cidade: o encanto (e posterior desencanto) de Marthe com a nova vida. O esfacelamento dos Braun, colocados em lados opostos na disputa entre nazistas e comunistas. O drama de David, dividido entre os ideais pessoas e a tradição familiar imposto pelo rígido pai. A desilusão de Kurt com a ruína da frágil república. É também através da vida dos personagens que Lutes retrata a ascensão do nazismo. De um jovem militante cochilando no início da HQ, à multidão gritando em uníssono “Heil Hitler”, Lutes mostra o nazismo como essa sombra distante, que cresce por meio da violência até pairar ameaçadora sobre todos.


Viagem ao lado de um nazista. A ameaça adormecida.

Toda essa trama ganha vida através do traço limpo, detalhado e expressivo de Jason Lutes. Ao olhar para a arte da HQ, não surpreende que Berlim tenha levado tanto tempo para ser concluída. Lutes reconstrói com precisão as roupas, veículos e a arquitetura da época: das vielas e bairros da cidade aos edifícios, cabarés e salões de jazz que explodiam de exaltação durante os “loucos anos 20”. Merece destaque também como Lutes usa os balões de pensamento, em momentos pontuais da história, como recurso para ilustrar a paulatina mudança de espírito das pessoas e da própria Berlim.

O cuidado e carinho de Lutes com os personagens e a história fazem com que cada página, quadro, gesto e expressão seja cheio de significado e emoção. É uma força visual que por vezes se torna excessiva e capaz de sobrecarregar o leitor, mas necessária para contar a história de pessoas verdadeiramente humanas, em uma época de plena excitação, prestes a mergulharem na barbárie do nazismo.

Ficha Técnica:

Título original: Berlin

Roteiro: Jason Lutes

Arte: Jason Lutes

Tradução: Alexandre Boide

Capa: Gustavo Piqueira e Samia Jacinto / Casa Rex

Revisão: Lilian Aquino e Guilherme Mazzafera

Letras: Lilian Mitsunaga

Editora: Veneta

Páginas: 592





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