Resenha | The Low, Low Woods, de Carmen Maria Machado e Dani
- Felipe Pinheiro
- 12 de nov. de 2021
- 3 min de leitura
Em sua estreia nos quadrinhos, Carmen Maria Machado traz um mistério sobre criaturas estranhas e memórias perdidas.
Carmen Maria Machado é um dos principais nomes da literatura contemporânea de ficção dos EUA. Suas obras, como o livro de contos O corpo dela e outras farras (Planeta Minotauro, 2018), finalista nos National Book Awards e Nebula Awards, e o best-seller Na Casa dos Sonhos (Companhia das Letras, 2021), misturam terror, ficção científica, fantasia e outros gêneros para discutir temas importantes como questões de gênero, sexualidade, misoginia e abusos. Por isso, não é surpresa que The Low, Low Woods, a primeira incursão da autora nas histórias em quadrinhos, traga esses temas em uma história de mistério envolvente.
The Low, Low Woods, HQ em seis edições publicadas pelo selo Hill House da DC Comics (e publicada no Brasil pela Panini com o título de Bosque Profundo), com roteiros de Carmen Maria Machado, arte de Dani e cores de Tamra Bonvillain, se passa nos anos 1990 na pequena cidade interiorana de Shudder-To-Think, na Pensilvânia. Criada e desenvolvida ao redor da exploração de minas de carvão, a cidade vive um lento processo de decadência desde o fechamento das minas provocado por um misterioso incêndio que iniciou décadas atrás e continua a queimar abaixo da cidade.
Além do incêndio nas minas, outras coisas muito estranhas ocorrem em Shudder-To-Think: crateras se abrem repentinamente no solo (e em locais em que não deveriam aparecer), homens sem pele, uma criatura meio humana, meio cervo são avistados de vez em quando e as mulheres são afetadas por uma misteriosa doença que as fazem acordar sem memória em lugares diversos da cidade.
É após sofrerem dessa amnésia que as protagonistas de The Low, Low Woods, as adolescentes Eldora “El” e Octavia “Vee”, acordam sozinhas em uma sala de cinema após o fim da sessão. Apesar de lembrarem de entrarem no cinema e de verem os créditos iniciais, as duas não tem memória nenhuma de assistirem o filme. E a lama nos sapatos de Vee junto com a estranheza do funcionário do cinema reforçam a sensação persistente de ter acontecido algo além do que uma “soneca durante um filme chato”.

Dizer mais sobre o plot de The Low, Low Woods seria, invariavelmente, arriscar cair nos spoilers. Mas não é arriscado dizer que Carmen Maria Machado usa a busca de El e Vee pela verdade do que aconteceu com elas como fio condutor para construir habilmente a atmosfera de opressão, presente em todas as edições do quadrinho, e utilizar dessa atmosfera, das criaturas e acontecimentos estranhos que vão surgindo ao longo da trama e dos segredos que as personagens descobrem em sua busca, para retratar e discutir as pressões sobre as mulheres na sociedade, as violências das quais são vítimas e o drama de se lidar ou não com as lembranças e traumas gerados por essas violências.
Mas o quadrinho não se sustenta apenas na progressão do horror. O roteiro também desenvolve a aprofunda as protagonistas. Ao longo das seis edições, Machado explora as personalidades e a amizade de Vee e El através de flashbacks e anedotas narradas pelas próprias personagens. Os dramas adolescentes típicos, como sexualidade, relacionamentos, ansiedade e temor pelo futuro, também são bem estabelecidos e trabalhados, tornando as protagonistas figuras verdadeiras e empáticas, fazendo de The Low, Low Woods não apenas uma história de terror e mistério, mas também um conto adolescente de crescimento e descoberta.

Diante de tantas camadas, a arte de Dani é bem-sucedida em traduzir as nuances dos roteiros de Carmen Maria Machado. Com um estilo de traço mais "sujo", uso de sombras, quadros e composição de páginas “instáveis”, além do design elaborado e grotesco das criaturas, Dani consegue transmitir para o leitor toda a tensão, desconforto e terror que as personagens vivem ao longo da história. Ao mesmo tempo, Dani desenha El e Vee com muita expressividade e emoção nos momentos mais leves da HQ, tornando mais forte o processo de identificação e empatia do leitor com elas.

De pontos negativos do quadrinho, pode-se citar algumas pontas soltas que são deixadas ao final da história, talvez pensadas para uma possível continuação, e a forma um tanto quanto didática e expositiva demais em que os mistérios são explicados. Mas são questões pontuais que no fim não diminuem a força de The Low, Low Woods. A estreia de Carmen Maria Machado nas histórias em quadrinhos é um mistério instigante, protagonizado por personagens bem construídas e criaturas estranhas, que mostra os horrores escondidos abaixo da suposta normalidade da sociedade.
Ficha Técnica
Título: The Low, Low Woods
Roteiros: Carmen Maria Machado
Arte: Dani
Cores: Tamra Bonvillain
Letras: Steve Wonds
Editora: DC Comics

















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