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ENTREVISTA | Tom Gomes: “A arte grita representatividade”

  • Foto do escritor: Felipe Pinheiro
    Felipe Pinheiro
  • 25 de nov. de 2021
  • 9 min de leitura

"Após publicação na Europa, quadrinista paraense se prepara para lançar "SAWE!”, seu novo quadrinho, no Brasil


Tom Gomes. Fonte: Tom Gomes/Arquivo pessoal

A relação de Tom Gomes com as histórias em quadrinhos começou bem cedo na vida: o paraense conta que aprendeu a ler com as HQ dos anos 90. Assim como a maioria dos fãs, Tom consumiu bastante quadrinhos americanos durante a vida, mas revela que as influências para contar as próprias histórias, na verdade, vieram dos autores de mangá como Naoki Urasawa (Monster, 21th Century Boys) e Kentaro Miura (Berserk). “Quando eu comecei a ver esse tipo de trabalho, no fim da década de 90, descobri um universo que me afetava diretamente e que sinalizava que eu poderia, também, fazer algo de interessante dentro desse formato de histórias em quadrinhos”, declarou Tom.


Foi com essas influências, mais as das histórias do gênero darkfantasy do qual é fã, que Tom Gomes se tornou escritor e roteirista de quadrinhos. Como artista independente, Tom Gomes já lançou as HQs Isolda – A Canção da Espada junto com os artistas Jack Jadson, Jeff Batista, Josiel Santos e Marcos Martins em 2018, e Corruption – O Senhor do Abismo Cósmico, ao lado de Ronilson Freire e Audaci Júnior em 2019. E em 2020, após anos de desenvolvimento, Tom Gomes tornou realidade o projeto “SAWE!”, novamente ao lado de Ronilson Freire e com Fabrício Guerra. Em SAWE! Tom Gomes traz um universo de fantasia protagonizado pelos antigos povos Marajoaras e Tucujús, civilizações que viveram na região da Ilha do Marajó – PA entre 400 e 1300 d.c.


Publicada originalmente na Europa pela editora britânica Markosia, SAWE! Está prevista para ser publicada no Brasil no fim de 2021 após uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo pelo Catarse. E foi durante os preparativos para o lançamento de SAWE! que Tom Gomes conversou com Balões de Fala e falou um pouco sobre diversos assuntos como carreira, influências, processo criativo e claro, seu mais recente trabalho em SAWE!.


Fonte: Tom Gomes/Arquivo pessoal

BF: Conte sobre a sua trajetória. Como você se interessou por quadrinhos? Como foi o seu processo para se tornar um quadrinista profissional?


Tom: Eu tenho uma paixão em fazer quadrinhos e aprendi a ler com as histórias em quadrinhos. Revistas do Conan, Spawn, X-Men, e outras séries dos anos 90 eram uma coisa muito presente em casa no meu tempo livre. Considero que esse meio tem um potencial enorme, dialoga bastante com o nosso tempo, pelo uso de imagens e pela forma dinâmica e complexa de apresentar narrativas.


Minhas influências não foram tanto do quadrinho americano. Tiveram, sim, algum desses quadrinistas que me chamaram a atenção, como Frank Miller e Alan Moore. Mas, por outro lado, era um tipo de quadrinho cujas temáticas estavam bem distantes do meu cotidiano. Eram leituras que eu gostava de fazer, mas não eram histórias que me motivavam a criar as minhas. Me inspiram mais artistas como Naoki Urasawa, a série O Lobo Solitário. Quando eu comecei a ver esse tipo de trabalho, no fim da década de 90, descobri um universo que me afetava diretamente e que sinalizava que eu poderia, também, fazer algo de interessante dentro desse formato de histórias em quadrinhos.


BF: Antes de SAWE! Você produziu os quadrinhos Isolda – A Canção da Espada e Corruption. Como você acha que essas três obras (Isolda, Corruption e Sawe!) resumem a sua carreira até o momento?


Tom: O universo ficcional é muito parecido. Fazendo um paralelo até SAWE! nos meus trabalhos anteriores eu já contava histórias fantásticas com um pé no darkfantasy, que é uma leitura do meu interesse desde sempre. Enquanto eu estava fazendo SAWE! e mesmo depois, reconheci uma influência muito forte dessa leitura da época em que comecei a escrever meu primeiro livro de darkfantasy, que está finalizado, engavetado e esperando a hora certa para sair da gaveta (risos).


Livros de terror do Lovecraft e quadrinhos de darkfantasy do Kentaro Miura, por exemplo. Acho que tem muito disso, muito dessa influência nesse resultado. Porém, tem uma diferença material na qualidade do produto final, mas nem é isso o mais importante. Tem uma diferença, um ganho muito grande na capacidade de usar a gramática das histórias em quadrinhos para contar a história no timing, com a ambiência, com o clima, com a luz que acho que tem que ter. E acho que tudo isso faz com que eu conte melhor a história que quero contar. Toda essa carpintaria do quadrinho desenvolvi fazendo uma grande variedade de trabalhos anteriores.


BF: Segundo consta na página da campanha, SAWE! é um projeto em desenvolvimento a vários anos. A quanto tempo você está trabalhando em SAWE! e como foi o percurso até o quadrinho ser publicado na Europa e agora no Brasil?


Tom: Eu comecei a escrever o primeiro rascunho de SAWE! em 2013. Na época eu escrevi um resumo geral da história e em seguida fiz o que sempre faço quando tenho uma ideia: deixo guardado na gaveta. Depois de um tempo volto, leio o que escrevi e vejo se vale a pena escrever. Enquanto íamos produzindo o quadrinho, comecei a soltar alguns teasers e nós tivemos um retorno positivo. Na época, eu já fazia alguns trabalhos para o exterior com criação de textos como ghostwriter e acabei conhecendo muita gente do exterior que ficou curiosa e interessada. Fiz amigos na Polônia, Ucrânia e Alemanha. Até que as imagens chamaram a atenção de algumas editoras da Europa. Um dos editores entrou em contato comigo e, não demorou muito, um contrato foi assinado.


BF: Enquanto SAWE! foi publicada por uma editora na Europa, no Brasil a publicação será via financiamento coletivo. A que se deveu essa escolha? Como você vê a situação do mercado editorial de quadrinhos no Brasil?


Tom: O financiamento coletivo fortalece as histórias em quadrinhos brasileiras. Antes da era digital, para você ter sua própria HQ, um artista tinha duas opções: tentar convencer uma editora a publicar ou fazer um fanzine. Agora, graças ao financiamento coletivo, atualmente as possibilidades são outras.


Com o financiamento coletivo, por exemplo, você não tem o editor avaliando se é uma HQ de interesse do leitor. O próprio leitor avalia se ele quer o material ou não. E como a campanha dura um certo tempo, você vai tendo chance de encontrar o público ideal para sua campanha. Comparado com a forma que era, não vejo “contras” para os criadores. E nem para as editoras, já que muitas delas aderiram ao Catarse para atingir o público sem ter que colocar dinheiro antes de realizar o projeto. Em um mercado tão complexo quanto o brasileiro, que tem muita dificuldade quanto à distribuição, o financiamento coletivo aproxima leitor e criador e isso facilita a produção independente. No financiamento coletivo, todo o lucro vai direto para o próprio criador e em um processo “normal” de editora e livraria isso é muito diluído. Boa parte do resultado financeiro das vendas de um livro vai para a livraria, que normalmente fica com 50% do valor final, e para a editora que, por sua vez, paga somente 10% do valor para o autor.


Página de SAWE!. Fonte: Tom Gomes/Arquivo pessoal

As ferramentas digitais ajudaram também na divulgação dos conteúdos. Agora os quadrinistas, principalmente os independentes, tem um canal mais próximo com o público e isso faz bastante diferença. Além, é claro, das vantagens evolucionárias dos meios digitais, como agilidade, facilidade e o custo, que não é necessário pagar a produção de quadrinhos físicos para começar a divulgar seu trabalho.


BF: Como é seu processo criativo? Você possui alguma rotina na hora de produzir seus quadrinhos?


Tom: Eu não tenho uma fórmula para se criar. Não tenho uma fórmula para se ter uma ideia. Mas tenho uma estrutura. Eu começo com o planejamento, me organizo colocando em uma lista de prioridades os trabalhos que tenho que executar no dia seguinte. Então, todos os dias acordo as 04:30 e trabalho nos roteiros atuais e projetos futuros. Escrevo em torno de uma hora por dia. Em seguida, produzo alguma comissions de clientes. No decorrer do dia, me ocupo com outras tarefas e tento deixar mais de pensar o roteiro que eu estou escrevendo e passo mais a reparar nas pessoas que cruzam meu caminho na rua, na fila. No final do dia confiro minha lista de tarefas para ver as que cumpri, e planejo para o dia seguinte. A constância e a autodisciplina são muito importantes. Eu sempre procuro terminar o que eu começo, fazer melhor do que eu acho que posso e fazer mais do que eu posso.


BF: SAWE! é um projeto com a participação de muitos artistas. E além do roteirista, você também é o editor do quadrinho. Como editor, como tem sido a experiência de coordenar um trabalho colaborativo como SAWE? Quais os maiores desafios?


Tom: Para participar desse projeto, o artista tinha que querer pra caramba. Só para constar no portfólio, não adianta. Tinha que fazer com vontade. Quando eu edito, penso no leitor que eu era, e é por isso que existe essa sinergia tão legal com os leitores dos meus trabalhos anteriores. Existe diversos desafios nessa empreitada. O primeiro é alinhar as agendas dos artistas para que os quadrinhos não atrasem. Ao mesmo tempo, vou trabalhando no roteiro das edições seguintes, editando revisando e planejando as próximas campanhas.


BF: A arte de SAWE! é feita pelo desenhista Ronilson Freire e as cores pelo Fabrício Guerra. O que você pode falar do trabalho deles no quadrinho? E como foi o fluxo de trabalho entre vocês três durante a produção?


Tom: As artes do Ronilson são incríveis. Ele tem uma forma única de fazer com que cada painel fique impressionantemente dinâmico e é isso que eu procuro. O Fabrício Guerra é um excelente profissional que trabalha cada página com maestria e ainda entrega com grande velocidade. É muito bom fazer parte dessa excelente equipe.


BF: Para você, qual a importância de se ter quadrinhos que falem e tenham como destaque a história dos povos originários? E como você buscou escrever sobre esses povos e figuras importantes para eles e representá-los sem cair em estereótipos?


Tom: Uma das formas de quebrar esse preconceito com os povos originários é da visibilidade e venho fazendo isso através das linguagens dos quadrinhos. E eu acredito muito na arte como caminho de mudança, ainda mais nesse momento que o Brasil vive. A arte grita representatividade.


E nós estamos em um período da nossa história que a linguagem visual é muito valorizada. Os últimos anos foram dedicados a pesquisa, reflexão e aprofundamento de conhecimentos e vivências, buscando sempre, com cuidado e respeito, adaptar parte do vasto e complexo universo da cultura, mitos e narrativas dos povos originários para a linguagem das histórias em quadrinhos.


Página de SAWE!. Fonte: Tom Gomes/Arquivo pessoal

BF: Quais são suas referências e inspirações na hora de escrever seus roteiros e de que forma você as usa em suas histórias?


Tom: Aprendi a contar histórias a partir das narrativas fantásticas que devorava quando criança. Meu autor predileto era o Kentaro Miura. Com ele, eu aprendi a admirar a beleza que o bizarro pode ter. Que o fantástico pode ser triste e melancólico. Gosto muito do Bernard Cornwell, Conn Iggulden e Andrzej Sapkowski. E Urasawa é o autor que eu adoraria ser, mas nunca serei. Mas tudo bem, isso já não me incomoda mais.


Eu sou um cara pragmático na hora de estruturar minha narrativa. Uso um quadro de cortiça e post-its. Vou colocando no quadro e arrumando todas as passagens para que elas sejam fluídas e essenciais para a costura da história. Quando esbocei a primeira ideia de Sawe! Eu literalmente peguei o monomito de Joseph Campbell e o usei como estrutura narrativa.


Eu escrevo desde que me entendo por gente. Sempre tive sonhos malucos que me servem de inspiração e a ideia de começar a escrever é sempre intrigante e fascinante. Eu sempre começo com uma ideia, resumo ela em no máximo três linhas no meu bloco de notas (digital). Depois deixo ela engavetada, geralmente deixo passar algumas semanas, e volto a reler aquele rascunho que escrevi. Se ainda continuar sendo uma ideia boa, começo a desenvolver o roteiro bruto. Com início meio e fim. Não sigo uma regra, mas o que faço muito é anotar pequenas outras ideias que vão surgindo, organizando um pequeno sumário.

Então começo pelo cenário, normalmente. Imagino o local onde meu personagem está e descrevo tudo o que ele vê ao redor, como se o contexto físico pudesse explicar melhor a situação e deixar mais claro para mim o psicológico desse personagem. Desenvolvo uma pequena ficha para os personagens principais onde escrevo lá seus principais atributos e como eles se comportariam em determinadas situações. Faço uso de uma tríade que me acompanha a cada início de capítulo: contexto físico, personagem e aparência.


BF: Você acompanha o trabalho de outros quadrinistas paraenses? Como você vê o cenário dos quadrinhos no Pará e na Região Norte?


Tom: Ainda que o mercado brasileiro de histórias em quadrinhos seja amplamente caracterizado pela importação de outros países, é inegável a existência de uma significativa produção de histórias em quadrinhos nacionais. O Pará, por exemplo, já foi palco do surgimento de vários grupos que, durante anos, fomentaram a interação e a produção de diversos quadrinistas. Fanzines e revistas de quadrinhos saíram. Gosto muito de acompanhar o trabalho da artista Ty Silva e do quadrinista Jack Jadson. Eu gostaria de ver mais eventos de quadrinhos em Belém.


BF: Quais as suas expectativas para o lançamento de Sawe no Brasil? E você já planeja outros trabalhos para o futuro?


Tom: Com SAWE! tem muita coisa vindo aí. Tenho que trabalhar nas recompensas, foram mais 500 pessoas que apoiaram o projeto no Catarse. Realmente é muita coisa para empacotar. O segundo volume já está engatilhado. Tem outros projetos que já estão sendo desenvolvidos em segredo, outras histórias, mas infelizmente ainda não posso revelar nada por segurança contratual.


Fonte: Tom Gomes/Arquivo pessoal

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