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ENTREVISTA | Mandy Barros: “É com a arte que eu luto as minhas batalhas”

  • Foto do escritor: Felipe Pinheiro
    Felipe Pinheiro
  • 16 de nov. de 2021
  • 16 min de leitura

Participando de eventos nacionais e com publicação em revista estrangeira, artista paraense busca com suas histórias trazes mais visibilidade para os quadrinhos regionais.


Artista visual e quadrinista paraense Mandy Barros. Fonte: Arquivo pessoal

Mestre em Artes Visuais e quadrinista, Mandy Barros é daquelas artistas que gostam de fazer coisas diferentes em cada projeto. Dessa forma, a quadrinista já produziu obras variadas como uma adaptação em quadrinhos da obra da escritora Lindanor Celina, um quadrinho sobre o Círio de Nazaré e histórias autorais e sobre lendas urbanas para a coletânea do coletivo Açaí Pesado, da qual Mandy também é uma das editoras. “Isso que gosto nas artes e nos quadrinhos. Estar sempre fazendo uma coisa nova”, diz.


Recentemente, Mandy foi uma das artistas participantes do Projeto Zagaia, uma coletânea de histórias em quadrinhos feitas por artistas afroamazônidas e lançada em setembro desse ano. Em 2021, Mandy também produziu uma HQ que foi publicada na revista digital Cypher Comics, publicação mantida pela organização humanitária Front Line Defenders. Na HQ, Mandy relembra o Massacre de Pau D’Arco ocorrido no Pará em 2017, quando policiais militares mataram 10 trabalhadores sem-terra. Além dessas publicações, em outubro Mandy foi uma das representantes do Pará na sexta edição da Banca dos Quadrinistas, evento promovido pelo Itaú Cultural que destaca o trabalho dos artistas independentes do Brasil.


Em conversa com o blog Balões de Fala, Mandy Barros falou um pouco sobre sua carreira, trajetória, técnicas e inspirações. E sobre a importância de cada vez mais os artistas de quadrinhos independentes do Pará serem vistos e conhecidos fora das fronteiras do estado.


BF: Podes falar como você começou a se interessar por quadrinhos? Como foi tua trajetória para se tornar uma quadrinista?


Mandy: Primeiramente, obrigada pelo convite. Eu também sou pesquisadora, sei como é estar atrás de gente para falar dos nossos assuntos. Então, obrigada pelo convite.


Para ser bem sincera, a minha trajetória iniciou tarde. Eu comecei mesmo a me interessar por quadrinhos durante a graduação. Quase no final da graduação. Foi assim: recebi um convite do Volney Nazareno, que é outro quadrinista daqui do Pará, para um laboratório de quadrinhos na Casa das Artes. Nesse laboratório, tinham pessoas com experiência e pessoas ainda iniciantes na área dos quadrinhos. E com esse laboratório, produzimos o quadrinho “A menina que vem de Itaiara”, uma adaptação em quadrinhos da autora Lindanor Celina. Uma escritora mulher de Bragança-PA.


Como curiosidade, eu fui a única mulher participando desse laboratório. Não que não tivessem mais mulheres. Faltavam esses espaços em que as mulheres participassem de experimentações em quadrinhos. Foi com essa oportunidade que entrei e, desde então, não parei mais. Entrei no coletivo Açaí Pesado depois disso. Participei do Açaí Pesado volume 1. No volume 2, participei e fiz a capa da HQ. A convite do professor Ricardo Ono participei do quadrinho Meu Círio, vencedor do Prêmio PROEX de Arte e Cultura. Depois me tornei editora do Açaí Pesado. E assim faço vários trabalhos: tirinhas, webcomics, participei do Zagaia recentemente que foi um quadrinho de afroamazônidas. Enfim, estou produzindo ainda (risos).


BF: Mas antes de fazer quadrinhos, você já lia ou se interessava por eles? Eras uma leitora de quadrinhos antes de começar a fazê-los?


Mandy: Meu interesse por quadrinhos era pelo básico. Comecei mesmo a entrar mais nesse universo já produzindo. Foi assim que conheci colegas que me recomendaram leituras. Comecei a consumir mais e meio que entrei na bolha dos quadrinhos. Mas quando criança eu era mais da ilustração do que do quadrinho em si. Até porque tinha aquela ideia de que quadrinho era só para meninos, que era só super-herói. Mas fui vendo que não era exatamente isso. Conheci muitas pessoas que produziam por aqui e me mostraram que o quadrinho era muito vasto. Para todo tipo de leitor.


BF: Pensando em que tudo que tu já produziste até hoje, quais você diria que são os temas que mais trabalhas na tua produção de quadrinhos?


Mandy: Cara assim, como eu sou uma produtora independente, falo de coisas que me interessam. O primeiro quadrinho que eu fiz foi uma adaptação de um livro. Com o Açaí Pesado, primeiro ilustrei uma história de um personagem autoral meu. No outro volume foi uma lenda urbana. Então, estou sempre em um projeto diferente. Isso que gosto nas artes e nos quadrinhos. Estar sempre fazendo uma coisa nova.

No Zagaia foi uma memória, um quadrinho autobiográfico. Eu diria que a maior parte das minhas publicações são histórias que acontecem comigo. Memórias da vida, coisas do cotidiano. Lembranças de infância. Mas eu gosto muito também da área dos seres fantásticos. Do sobrenatural. Eu ainda não tive tempo para me dedicar a projetos mais autorais nesse sentido. Mas tenho muita vontade e tenho vários planejamentos para o futuro que irão entrar por esse caminho.


BF: Durante essa carreira de quadrinista, quais são os maiores que desafios que você enfrentou ou ainda enfrenta?


Mandy: Digamos que o mercado de quadrinhos ainda está se flexibilizando para os artistas daqui do Norte. Para mulheres. Para artistas pretas. Agora que está iniciando essa vontade de puxar gente daqui para fazer as coisas. Acho que essa é a maior dificuldade: entrar em um mercado que já está formado. Essa dificuldade de pegar projetos daqui e levar para outros ambientes. Uma publicação gráfica mesmo. Sempre que tem que fazer alguma coisa, é um esforço tremendo de muita gente para fazer acontecer.


Claro, tem também a questão da técnica. Eu tive que me adaptar muitas vezes sozinha. E tive muita ajuda de outros artistas para me deram dicas profissionais. Acho que muito disso vem dessa questão de coletividade. Muitos quadrinistas paraenses atuam dessa forma. A gente se ampara. Não todos, mas muita gente está ali e dá uns toques. Por aí a gente vai aprendendo.


BF: Tu és uma quadrinista que faz tanto roteiro quanto os desenhos. Qual das duas coisas você gosta mais?


Mandy: Desenho. Eu gosto mais de desenhar, finalizar e colorir. E gosto quando não tenho que me prender em um estilo específico. Quando posso fazer o meu próprio estilo, minha própria poética. Colocar as minhas cores e dar a minha cara para as imagens que estão aparecendo ali. Eu diria que roteiro é bom, mas já sou pesquisadora, então já escrevo muito. Então eu gosto mais de ver as imagens. Sou muito visual.


BF: Como é teu processo criativo? Você tem uma rotina quando está produzindo uma HQ?


Mandy: Tenho. Se eu vou fazer uma HQ do zero, faço por etapas. Primeiro, faço um argumento que é a ideia mesmo do que que eu quero para a história. Depois, passo para a parte de roteiro onde vou dividir as ações. O que os personagens vão dizer. Ideia de que quero passar. Atmosfera do ambiente. Com o roteiro pronto, passo para a parte que a gente chama de raff. Que é um rascunho. Começo a esboçar, fazer um concept de personagem. Às vezes, junto com o roteiro, estou criando os personagens porque consigo visualizar melhor os ambientes e os cenários. Quando passa para a estrutura da história, faço o rascunho. Depois, eu parto para arte final. E depois para a colorização que é a minha parte favorita. Gosto muito de cor (riso).


Fragmento de Vozes da Terra, por Mandy Barros. Fonte: Arquivo pessoal

BF: E qual é a importância das cores nas tuas histórias? Por que você gosta tanto delas?


Mandy: As cores transmitem sentimentos. Elas mexem com as tuas sensações. Por exemplo, se uso uma cor muito saturada, incomoda a vista. Muito difícil eu usar uma cor muito saturada. Mas, de repente, para uma atmosfera em que tudo é escuro e quero transmitir alguma coisa brilhante, alguma coisa mística/mágica, as vezes o tom saturado ajuda.


Tem muito dessa questão técnica mesmo de trabalhar contrastes, a atmosfera do ambiente que quero transmitir, se é noite, se é dia, se o sol está se pondo ou nascendo. O céu é muito importante nas histórias que crio. Porque a gente tem aquela ideia de que o céu é sempre azul. Mas se você for olhar, em vários momentos do dia o céu tem cores completamente diferentes. Então sempre tento explorar outras possibilidades de cores para o céu. E geralmente a cor do céu impacta na imagem.


Eu também coloco algumas coisas de um tom meio sépia as vezes por cima, mesmo que seja ainda bem fraco, que é para dar aquele amarelado que gosto por causa da temperatura da cor. Quando se coloca um tom mais amarelado, laranja ou rosa, parece que aquilo aquece. Aí uma cena que é para ser um pouco mais calorosa, mais emocionante, se torna mais acolhedora por causa desses tons. Já uma cena que é mais triste, angustiante, posso usar uma camada de tons mais frios por cima. Então, tem mesmo essa questão da sensação de que eu quero transmitir a partir da cor.


BF: Recentemente, tu publicaste a HQ Vozes da Terra, que é sobre o Massacre de Pau D’Árco que ocorreu aqui no Pará em 2017, na revista estrangeira Cypher. Como foi fazer essa hq? E o que significou para você, para sua carreira, publicar em uma revista internacional como a Cypher.


Mandy: Eles me ligaram. Isso já me deixou bem surpresa. Pegaram meu contato e ligaram direto para mim. E foi um grande desafio. Porque não tinha muito tempo para fazer. Ela tinha que ser publicada perto da data em que aconteceu o Massacre de Pau D'Arco. Se tive 3 semanas para fazer aquelas oito páginas coloridas e diagramadas foi muito. Foi bem apertado para produzir.


Ao mesmo tempo, tive que ter um cuidado redobrado com essa HQ. Porque foi uma história que aconteceu realmente. Com pessoas. Vítimas. Que não foi totalmente solucionada. Ainda está correndo na justiça. A história ainda está se desenrolando. Então, eu não queria fazer algo que pesasse ao ponto de, de repente, uma pessoa que está intimamente ligada à história se sentisse com gatilhos. Eu queria trazer na história uma narrativa que conduzisse à justiça. A necessidade de justiça pelas pessoas que passaram por aquilo. E pelo absurdo das coisas que aconteceram.


Como tive que fazer algo um pouco mais rápido, o traço dessa HQ não ficou tão linear, com acabamento. Ficou um traço um pouco mais orgânico. E vou ser sincera, gostei tanto desse traço que estou aderindo-o para todas as minhas outras produções. Eu já tinha experimentado um pouco desse traço no Zagaia. E eu gostei muito de experimentar ele em mais páginas nessa história do Massacre de Pau D'Arco.


Claro, tem essa questão também de que é uma HQ internacional. Então, para mim foi muito importante ter essa primeira HQ atravessando as fronteiras do Brasil e alcançando sei lá quantos países. Mas não acho que seja importante só para mim. É importante também para outras pessoas que vão produzir aqui no Pará. Para outras pessoas da Amazônia que produzem quadrinhos. Acredito que quando a gente se mexe nessa direção e consegue chegar nesse ponto, puxamos outras pessoas com a gente. E eu acho que isso é o mais legal. Saber que futuramente posso ver histórias de colegas também rompendo essas barreiras territoriais. Essa foi a parte mais legal desse quadrinho para mim.

Página de Vozes da Terra, por Mandy Barros. Fonte: Arquivo pessoal.

BF: Quais são as técnicas que tu mais gostas de usar? Seja para escrever e para desenhar?


Mandy: Roteiro faço direto no computador, vou escrevendo, deixo lá um tempo, depois olho de novo para ver se está bom. Sempre mexo alguma coisa. Roteiro é sempre versão 2, 3, 4, 5... (risos). Nos quadrinhos, ainda gosto de fazer o traço no manual. Nos primeiros rascunhos, gosto de pegar minha mesa de desenho, abrir a página, medir as margens, fazer os requadros e desenhar o rascunho de como quero que seja a página. Depois vou mexer com o digital. O digital acelera o processo e permite que eu consiga mexer nas proporções, cores, formas. Mas para mim é muito importante essa parte do desenho manual. Porque sinto que o desenho fica mais com a “cara” do meu traço quando uso primeiro o papel.


Eu sempre fui uma artista que para ilustração e quadrinhos comecei com a parte analógica no rascunho ou em um sketchbook. Então, quando faço direto no digital tenho um resultado que não gosto tanto. Quando faço no papel, só eu, lápis e papel, fica mais com a cara do meu desenho. Essa primeira parte é a mais importante para mim. Mais até do que as outras.


BF: Quais são as suas referências? Tu tens alguma inspiração em outras pessoas na hora que vai fazer uma história?


Mandy: Eu tenho muitas referências de artistas que são colegas. Que já trabalharam comigo. Ou com quem já conversei. Porque aprendi muito com esse pessoal. Eu gosto muito das cores da Helô Rodrigues, como ela não se preocupa com o tom de pele ser sempre uma paleta específica. Ela bota amarelo, rosa ou azul e fica legal. Eu amo isso. Gosto muito do traço mais orgânico da Marina Pantoja. Gosto do traço do Volney, é muito livre o traço dele.


Tem também a Ty Silva, que é uma artista que me ensinou muito principalmente na parte de como atuar profissionalmente com ilustração, quadrinhos, como trabalhar mesmo com isso. Nas cores dela tem também uma variação de tom. Tem Valéria Aranha. Ela brinca com proporções e eu acho isso um máximo. E ela mistura várias cores em uma ilustração só e fica incrível.


Enfim, posso ficar falando um tempão aqui. Mas cada um eu gosto de um elemento. Assim, de cada artista eu gosto de certas características, me inspiro e faço minha própria poética. Monto meu próprio traço. Não copiando, claro, mas pegando referências.


BF: Como tem sido esses dois anos de pandemia para você? Isso afetou de alguma forma o teu trabalho?


Mandy: Afetou sim. Com a pandemia e as coisas mais on-line, entrei no meio digital. Antes da pandemia eu só fazia desenhos a lápis. E para não pirar no meio do isolamento, fiquei fazendo um desenho por dia. Exercitando a arte digital. Fazia no celular as artes. Às vezes rascunhava no papel e fazia a finalização no celular. Fui aprendendo. Começaram a surgir alguns cursos on-line e fui participando. Um muito legal foi o de colorização de quadrinhos pelo Norte em Quadrinhos. Foi aí que eu entendi mesmo como se colore uma página de quadrinho. Isso me ajudou em outras ilustrações. Em outros eu vi como se trabalha questões de medidas, pixels, as proporções da imagem para ela não ficar distorcida.


Tentei me dedicar a ficar sempre em produção. Sempre exercitando alguma coisa. Porque também sentia que estava um ambiente bem complicado para as pessoas. Estava todo mundo se cobrando produtividade. Eu não estava exatamente produzindo para mostrar que estava ali fazendo as coisas. Era mais para organizar minha cabeça. Conseguir pegar aqueles sentimentos e tirar de mim. Para não ficar aquilo preso.


BF: Aproveitando que você falou dos quadrinhos digitais que começastes a fazer. Quais são as particularidades de uma HQ feita e publicada em uma plataforma digital tem em relação ao quadrinho impresso? O que tem de diferente na hora de fazer e pensar o quadrinho?


Mandy: A HQ, quando é só virtual, só temos que pensar nela de forma virtual. As folhas são sempre em sequência, as páginas são sempre uma atrás da outra. Eu não tenho que bater cabeça pensando em diagramação, o que vai ficar de frente e o que vai ficar de costa, quantos páginas tem, se eu não vou quebrar o ritmo da história na virada de página. Então, quando a gente pensa uma HQ impressa, são muito mais esforços técnicos e de custos também, porque não é barato fazer. Estou trabalhando no Açaí Pesado e a gente teve um processo de produção da HQ que foi totalmente online por causa da pandemia. E a gente tinha que fazer sair um quadrinho colorido, 80 páginas, por Catarse e foi um desafio gigante. Se tivesse sido um quadrinho só online, acho que teria sido menos trabalhoso, mas como foi também impresso, a gente teve muito mais trabalho. Reunir as histórias, colocar na proporção certa para a impressão. Muito trabalho.


BF: Você também participa de diversos eventos de quadrinhos. Você estava na Banca dos Quadrinistas do Itaú Cultural. Como você percebe o espaço para mulheres que fazem quadrinhos nesses tipos de eventos?


Mandy: A Banca de 2021 foi muito elogiada, principalmente por essa parte, porque tem 50% de uma Banca formada por mulheres. Isso é inédito. Uma quantidade equiparada de homens e mulheres na produção de quadrinhos. E mais que isso, tem pessoas de vários estados. Sul, Sudeste, Norte, Nordeste. Eu acho que isso é importantíssimo porque mostra que a gente não tem uma produção somente ali do Sul/Sudeste. A gente tem outros lugares com produção mesmo com todas as dificuldades.


Claro que não é momento para se romantizar o esforço das pessoas. É necessário que exista investimento para isso. Então quando a gente mostra que tem pessoas produzindo nesses espaços, mesmo com toda a dificuldade, a gente mostra nossas capacidades, mas também espera uma reação para que tenha mais investimento. Para que tenha mais facilidade para que a gente possa continuar produzindo. Com uma editora. Com várias pessoas juntas em uma revista. Sem precisar ser todo tempo uma ação independente. Um Catarse diferente para cada projeto. Claro que isso ajuda bastante, mas se a gente tivesse as mesmas oportunidades que outras pessoas, de outras regiões, acredito que teria uma diversidade de quadrinhos enorme. De assuntos diversos e superinteressantes.


Eu vejo como uma oportunidade esse meu nome na Banca e o da Helô, que também é paraense. E vejo como oportunidade de mostrar que existem pessoas aqui que produzem. E não só nós duas. Tem muito mais. Então é muito bom, com a nossa voz, divulgar as outras pessoas que estão ali nos ajudando. E torcendo também, porque quando a gente vê, muita gente se identifica como se fosse uma conquista sua. É como se a pessoa visse: “olha, é possível”. Esse sentimento é muito legal. Mas o que eu espero disso é que mude o cenário dos quadrinhos no futuro.


Quadro de Causos Urbanos, HQ de Mandy Barros na Banca dos Quadrinistas do Itaú Cultural. Fonte Arquivo pessoal

BF: No final do seu quadrinho autobiográfico tempo, que saiu na coletânea Zagaia, mostra você segurando um lápis e com um recordatório dizendo; ainda sei afiar minha zagaia para prover sustento ou traçar guerras. O que significa esse simbolismo do lápis como a tua zagaia?


Mandy: Esse quadrinho Zagaia, para mim, foi sensacional. Porque quando eu ouvi a palavra zagaia e vi que era um tipo de lança, lembrei automaticamente dessa memória de infância. Meus avós e meu pai são de Parintins, no Amazonas, e minha mãe é daqui de Belém do Pará. A gente fazia essas viagens e eu aprendi a desenhar nessas viagens de rio. Sempre para passar o tempo. Tinha que passar quatro dias de barco. Lembrei da zagaia que meu avô fazia e me ensinou a fazer também. E a zagaia, para as comunidades indígenas e quilombolas, é o que prover o sustento da caça e da pesca, mas que também pode ser utilizada nas guerras. Para defender o seu povo.


Então na minha história eu trouxe a zagaia como uma metáfora de o que prover o teu sustento, as tuas guerras diárias. Qual é a sua zagaia? É mais um questionamento que trago nessa história do que uma afirmação. E a minha zagaia é a arte. É ali que eu tenho o meu sustento. Minhas inspirações. É com a arte que travo as minhas batalhas. De crítica. Posicionamentos políticos. Memórias. Tantas coisas que fazem parte de mim, da minha vida, são transmitidas na minha arte. Tudo que eu sou e tudo que eu aprendi está ali. Toda a minha cultura. E a zagaia para mim é uma coisa e para outra pessoa pode ser outro elemento. Mas quero fazer entender que é importante ter isso em si. O que te faz pensar? O que te faz se mover? É meio que isso o que a zagaia representa para mim naquele quadrinho.


Muito legal que aconteceu uma cena superbacana de uma entrevista que a gente fez para o SBT Pará. O câmera do SBT Pará falou que viu o nome zagaia e lembrou do avô dele. Ele contou que o avô falava para ele: “meu filho, vai ali pegar a minha zagaia para pegar um peixinho” foi lindo esse momento; a gente se emocionou muito. E é isso que a gente quer trazer. Identificação.


Quadro da HQ de Mandy Barros para o Projeto Zagaia. Fonte: Arquivo pessoal

BF: Como você vê hoje o cenário de quadrinhos no Pará do ponto de vista criativo?


Mandy: De 2017 para cá, que foi quando comecei a produzir, eu vi uma mudança muito grande. Via muita gente doida para fazer quadrinho padrão. Entrar na Marvel. Entrar na DC Comics. Fazer quadrinho de super-herói. E assim, não sei se isso é bom exatamente, porque se perde um pouco a credibilidade de que existe outras possibilidades de quadrinhos. E de uns tempos para cá eu já vi gente colocando outras histórias em quadrinhos. Sobre música paraense. Histórias do cotidiano. Sobre comida.


Eu acho que isso é muito importante também, a gente conseguir representar coisas da nossa cultura que podem causar uma identificação e apresentar a nossa cultura para outros estados e outras pessoas que não conhecem. Eu acho muito importante a gente balançar um pouco essa criatividade. Se a gente mantém a mesma coisa, acredito que fica um pouco limitante. Porque parece que só fazendo um tipo de quadrinho é que você vai conseguir produzir. E não, você pode trazer outros traços, outras experiências. Tem um artista que eu amo muito o traço dele. Rodrigo Leão. Em uma mesma página de quadrinhos, ele coloca técnica digital, técnica de caneta bic, colagem. Ele mexe com vários tipos de técnicas diferentes na mesma página. E fica incrível em uma composição visual. Isso é uma experimentação artística.


BF: Como tu vês o apoio à produção de quadrinhos aqui no Pará? O que que falta para os quadrinhos daqui da região serem mais conhecidos pelos próprios paraenses?


Mandy: Cara, o ruim daqui é que são os próprios artistas que tentam arrecadar o dinheiro para conseguir fazer essas publicações existirem. Por consequência, ocorre que o número de publicações é limitado. Por causa de dinheiro mesmo. A maioria das impressões são feitas fora do estado para serem mais baratas porque nas gráficas daqui são muito caras. Isso encarece a produção e reduz a quantidade de exemplares. E com essa redução a gente não consegue fazer uma distribuição muito grande sem que isso mexa com o bolso da gente.


Uma estratégia que a gente tem feito é de vender a revista digital. Mas nem sempre isso tem um retorno tão bom. O que eu vejo que falta mesmo é alguém, algum órgão, alguma editora, pegar os volumes que já existem e reimprimir. Fazer uma segunda edição em grande escala. Colocar nas bancas de revista para vender. Sei que vai ter muito retorno. Um quadrinho que todo mundo é doido para ter é o Belém Imaginária, do Volney. Não tem uma reimpressão dele. Foram feitos poucos volumes. Quem tem, tem aí um item lendário. Falta isso mesmo. As editoras pegarem esses trabalhos que já existem e fazer uma reimpressão em larga escala.


BF: E com relação a apoio estatal?


Mandy: Com a pandemia, esses órgãos que têm pessoas mais próximas dos produtores culturais fizeram algumas iniciativas que incentivaram a produção. E tu vê a diferença quando tem um investimento do governo. Por exemplo, o Projeto Zagaia não foi um projeto feito só para ficar na mão dos artistas. Ele foi distribuído em bibliotecas públicas, em escolas. Então ele já está em ambientes onde vai poder ser usado para um fim educativo. Vai poder ser utilizado para crianças e essas crianças poderão ter interesse de produzir futuramente. Ou qualquer pessoa que tenha interesse e tenha uma biblioteca perto de casa, vai ter acesso a esse exemplar, ler e pensar o seu próprio processo criativo.


O projeto Niára que é de um coletivo só de mulheres, o Serende Pará, também foi outra iniciativa feita com apoio público e é um trabalho incrível. E vai ter versão digital, versão para celular. Tu vês até um pouco de acessibilidade nesses projetos porque tem também audiodescrição. Então quando tem de fato um apoio do governo, tudo isso se potencializa. Eu acredito que a gente tem recebido mais apoio dessas unidades governamentais do que de editoras em si. É mais fácil a gente cobrar e esperar algum retorno do governo do que conseguir apoio de outras editoras.


BF: Para finalizar, o que você diria para alguém que tem o sonho de seguir carreira fazendo quadrinhos?


Mandy: Cara, o conselho que eu vou dar é: produza. Com apoio? Produza. Sem apoio? Produza também. Porque se tem uma coisa que eu aprendi é: a gente só vai conseguir “furar a bolha” e conseguir conquistar alguma coisa mostrando que a gente sabe fazer. Então esse é o meu conselho. Mostra que você consegue fazer. Que tens vontade de produzir. Algumas pessoas vão gostar. E vão olhar e dizer: aquilo tem potencial.


Apareceram muitas pessoas na minha vida que me disseram: olha tens que tirar uma foto melhor do teu trabalho, tem que apresentar melhor teu trabalho, tem que arte finalizar de um jeito melhor, tua imagem está em baixa resolução. Essas críticas que parecem ruins, mas que agregam. Tudo isso constrói o que a gente vai ser como profissional e a gente está sempre em mudança.


Tem que saber receber a crítica também. E para gente saber receber a crítica a gente tem que produzir. Não adiantar ficar sonhando que alguém da Marvel ou da DC Comics vai bater na minha porta e me contratar se eu não tenho nada para mostrar. Tem que ter alguma coisa nem que seja um fanzine, uma webcomic, um trecho, uma ilustração, um rascunho. Você tem que produzir e tem que materializar aquilo. Acho que isso é o mais importante. Experimentar. Da forma que for possível.

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