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ENTREVISTA | Ty Silva (Parte 2): “Uma coisa que tenho em mente é que união faz a força”

  • Foto do escritor: Felipe Pinheiro
    Felipe Pinheiro
  • 3 de nov. de 2021
  • 8 min de leitura

Ilustração de Sônia Guajajara, por Ty Silva, para a série Vozes Indígenas. Fonte: behance.net/tysilva_

Na segunda parte da entrevista com Ty Silva, a quadrinista e ilustradora fala sobre as técnicas e referências que utiliza nas suas obras, a importância dos coletivos de artistas e do incentivo à produção de quadrinhos e os planos para o futuro.


P: Quais são as técnicas que tu mais gostas de utilizar nos teus trabalhos e o que tu gostas nessas técnicas?


R: Eu comecei no tradicional. Comecei no lápis de cor e depois fui para aquarela. Eu gostava muito do lápis de cor porque, como boa virginiana, eu gosto de precisão. Então o lápis de cor me dá uma boa precisão de fazer aquilo bonitinho. Só que eu demorava muito para fazer um desenho. Demorava às vezes uma semana para fazer um desenho A3. E teve um momento quando eu estava fazendo um desenho no A3, fui passar um ecoline, uma tinta super pigmentada, e o ecoline caiu no papel bem em cima do rosto da personagem e eu quis a morte. Porque tinha destruído o desenho. Depois de uns dez minutos de crise de choro e querendo destruir o universo, a minha professora disse: “Usa isso, te apropria e continua a ilustração a partir disso”. Aí eu fiz uma princesa vomitando um sangue azul.


Depois disso, comecei a tentar me divertir mais no processo. E me vi como uma pessoa menos paciente em demorar fazendo algum trabalho. O fato de trabalhar com aquarela é porque eu conseguia fazer espaços maiores, ainda com uma questão de precisão e detalhe. A aquarela é uma técnica meio chatinha, mas eu conseguia preencher mais espaços e colocar os detalhes que eu queria com fluidez. Aí comecei a misturar porque achava divertido no meio do processo. Como meu processo sempre foi muito técnico, sou muito da metodologia, se fico muito tempo na metodologia fica uma coisa estressante para mim. Então tento pegar essa metodologia, colocar lá em uma base, mas misturar com um monte de coisa que vá me fazer com que eu me divirta. Podia começar uma ilustração na aquarela e depois metia um lápis de cor, uma copic, depois um giz pastel e fazia uma grande “farofa” com esse processo. E até hoje é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Hoje em dia trabalho muito com caneta, marcador, copic, porque elas são rápidas. Mas para mim é muito divertido está sempre misturando material.


Aquarela de Ty Silva. Fonte: behance.net/tysilva_

Quando eu fui para o digital, foi por uma questão de praticidade. Porque para fazer certas coisas é muito mais rápido do que fazer no papel. Não tem tempo de secagem de material nem nada desse tipo. Mas eu sempre tento trazer elementos do tradicional para o digital. Então coloco textura de papéis para assimilar isso. O tipo de pincel que uso sempre vão remeter ao que seja de mais textura, como um pincel de aquarela, pincel de giz. Sempre algo que vá remeter o que eu faria no papel. O digital sempre vai ter uma perda, porque tem umas sutilezas que só o tradicional vai trazer. Mas eu tento fazer meu digital passar o mais perto disso. E às vezes misturo também. Na primeira Comi-Con, fiz todas as aquarelas e ilustrações no lápis de cor, depois digitalizei e finalizei todas elas no digital. É uma brincadeira que gosto de fazer, também. Acho divertido que as pessoas, às vezes, juram que aquela pintura que estão vendo foi feita no papel e foi algo que fiz no digital. Ou acham que fiz no digital, mas na verdade fiz no papel. Acabou que foi assim.


P: Quando você vai trabalhar, tu tens alguma referência? Algum artista que te inspira na hora de escrever a história ou de desenhar?


R: Muitos. Posso passar uma lista. Tem uma quadrinista que é de Belo Horizonte, eu acho. É a Manu Cunhas. Gosto muito do trabalho dela. Tanto porque acho o traço dela lindíssimo, quanto também acho muito bacana como ela conta as histórias dela. Ela sempre faz histórias focando em representatividade feminina, população LGBTQIA+. Outra que eu gosto muito é a Ilustralu, que é nordestina e faz o Arlindo. Uma história também superfofinha. O traço dela é muito diferente, muito legal. E eu acho muito bacana como ela conta as histórias com uma leveza e fofura ímpar. Acho muito bonitinho ver esses desenvolvimentos dela.


O Gidalti não posso esquecer. Acho ele genial. Ele é do tradicional. Faz o quadrinho no tradicional e acho de uma coragem gigante, porque demora horrores. Mas eu acho a narrativa dele incrível. Otoniel Oliveira, que tem uma sensibilidade visual fantástica e os trabalhos dele são geniais, tanto os quadrinhos digitais quanto os tradicionais. E tem o Ademar Vieira que é de Manaus. Tanto as tirinhas quanto os quadrinhos que ele desenvolve falam muito de questões políticas. Essa é uma galera que produz texto e produz ilustrações. Mas de uma pessoa que é mais da parte de desenho, finalização e colorização que eu gosto muito é a Malu Menezes, de Manaus também. Eu acho incrível o trabalho dela. Tem uma galera de fora também, mas vou focar no Brasil.


P: Além do Açaí Pesado, tu também participas de um coletivo de artistas mulheres do Pará, o MAR. Como funcionam esses coletivos e como tu vês a importância deles para desenvolver tanto as artes visuais quanto os quadrinhos na região?


R: Uma coisa que tenho em mente é que união faz a força. Foi uma coisa que percebi muito: como isso funciona na prática. Você pode ser um artista incrível sozinho, mas sempre acho que quando você está em colaboração com outros artistas, isso só vai enriquecer teu trabalho. Então, eu que sou uma pessoa que acaba fazendo, muitas vezes, projetos sozinha, por diversas questões, muitas vezes de deadline, gosto muito de fazer trabalhos colaborativos. Eu acho muito importante que a gente esteja fazendo isso até para se conhecer. Temos um problema muito grande que é: não sabemos quem produz as coisas aqui. Conhecemos três, quatro pessoas e “morreu”.


Quando voltei para Belém, percebi é que não conhecia ninguém que produzia aqui. Todo mundo que eu conhecia era gente que já tinha saído e eu conhecia por São Paulo. Então, ter o Açaí e o MAR facilitou muito para que entrássemos em contato uma com a outra. Para que víssemos que não estamos sozinhas em momentos de desespero. E para perceber que no momento que a gente quer fazer coisas maiores, que não daríamos conta sozinha por inúmeros fatores; logística, estratégica, altas demandas, que conseguimos contar com o apoio de outras pessoas para fazer esses projetos.


O MAR é um excelente exemplo disso, porque começou com cinco meninas. Hoje já somos mais de cem de diversas idades, diversos eixos de trabalho, do grafite à animação. São trocas riquíssimas. Com isso, conseguimos conquistar muito mais. Compartilhamos as dores com as outras conseguimos chamar mais atenção. Com isso conseguimos desenvolver feiras, exposições. E o MAR deve ter uns três anos. Sendo que desses três anos, um ou quase dois foram durante a pandemia. Conseguimos desenvolver muito já em tão pouco tempo de vida. E tem muito mais para desenvolver. Então acho extremamente importante. E vejo que estão nascendo mais coletivos daqui. E espero que nasçam cada vez mais.


HQ Amigo, de Ty Silva, na coletânea #DRX. Fonte: behance.net/tysilva_

P: Como tu vês o incentivo aos quadrinhos aqui no Pará? Existe algum programa, no âmbito de prefeitura ou governo do estado, algum edital que incentive a produção de quadrinhos aqui no Pará?


R: Durante esse processo de pandemia, tivemos a lei Aldir Blanc. Que foi muito boa porque salvou muita gente. Eu tenho inúmeros colegas que mandaram projetos na área de quadrinhos e artes visuais e conseguiram ser contemplados por esses projetos. E são projetos incríveis. Projeto de quadrinho é muito caro. Porque a impressão é cara, pagar todo mundo que está fazendo o trabalho é caro. Às vezes tem questão de envio se você vai fazer uma vaquinha ou algo do tipo. Então precisa de ajuda para fazer. Teve muitos projetos que se não tivessem editais não teriam sido desenvolvidos.


No mundo ideal, a mesma quantidade de edital que teve durante a crise aconteceria nos outros momentos. Porque de fato é preciso de auxílio do governo para que esses projetos sejam desenvolvidos. Tem pouca editora e a editora tem uma série de questões quando você vai desenvolver projetos. O próprio autor ter cacife para bancar uma produção é um custo bem alto. E quando vai fazer por “vaquinha” é aquela questão que eu falei. Acaba caindo muito nessa questão de ter muitos seguidores. Então, o fato de ter esse edital do governo faz com que mais pessoas consigam montar seus projetos e desenvolver. Tem ainda a dificuldade que alguns editais são bem chatinhos. Para algumas pessoas que podem ter uma ideia genial, mas não tem uma vivência de edital, ele ainda é um pouco excludente. Mas, de modo geral, é ainda uma das melhores ferramentas que tem.


Eu acho que isso não vai se manter, porque acho que foi muito uma questão da crise e por conta disso eles usaram verbas para desenvolver esses projetos. Mas seria muito importante que existissem mais editais e a Secult (Secretaria de Estado de Cultura - PA), o governo, apoiassem mais. Porque se teve uma coisa que ficou provado durante todo esse processo é que tem muita gente produzindo arte de qualidade aqui no estado. Eles só precisam de espaço e de apoio.


P: Dos quadrinhos que você já fez até hoje, tem algum que possui um significado especial para você? E por quê? Tem algum trabalho que para você foi importante fazer?


R: Acho que um dos que eu mais gosto é o do Mulheres e Quadrinhos. Que foi o Raízes, um quadrinho com um traço que eu não costumo usar muito. Porque meu traço de ilustração dá mais trabalho. Mas foi um que gostei muito de desenvolver, apesar de ser super curto. E tem os que não lançaram. Que é o meu quadrinho novo no Açaí Pesado, o Vírus, e o que vai lançar pela Peba que é A Série Que Você Nunca Viu.



O Vírus foi um que gostei de fazer. Eu fiz o roteiro, o Alexandre fez os desenhos dos personagens e depois fiz a colorização. Foi bem um processo em equipe não linear, foi voltando de um para o outro. E foi muito legal de trabalhar porque o Alexandre tem um traço super fofinho. Eu escrevia uns textos que eram “morte e destruição” e ele conseguia deixar fofinho, mas sem perder o conteúdo. Então foi muito divertido. E ele tem uma continuação que o Alexandre sempre me cobra para fazer, porque ele tem todo um universo criado. Então foi tão frutífero o processo dele que rendeu até mais coisas. Esses são meus xodós.


P: Quais são os seus atuais projetos? E podes falar sobre teus futuros projetos? Que outros quadrinhos você pretende fazer no futuro?


R: Reza lenda que vai ter a continuação do Vírus. Vamos contar como teve a formação desse universo ou vamos contar uma aventura mais complexa dele. Vamos ver como vai ficar isso. Eu tenho um para uma editora que eu não posso falar sobre (risos), mas que está no desenvolvimento do roteiro. Só que é longo. Então está me dando uma boa dor de cabeça, porque não consigo muito bem sentar para escrever e me dedicar só a ele. E é um projeto que precisa de uma dedicação quase exclusiva pelo fato de ser muito grande. Mas, quem sabe, até ano que vem ou meio do ano que vem a gente consiga colocar ele em prática.


Tem alguns projetos que estão assim: já falei com um. Já falei com outro, já me chamaram para um que a gente pensa “Ah, quando a gente conseguir parar a gente faz”, só que isso pode ser de um mês para anos. Porque todo mundo é bem ocupado. Mas tem um projeto só de mulheres que estou pensando em fazer. Mulheres daqui. Tem outro com uma galera de Manaus que também penso em desenvolver. Mas eles ainda estão bem “crus”. De quadrinhos mesmo é esse da editora e a provável sequência do Vírus.

P: E nas artes visuais e ilustrações?


R: Tem as séries que eu já faço. Série de Animais da Amazônia e a série de animais LGBTQIA+, que estou devendo as próximas ilustrações (risos). Mas também estou querendo fechar elas e estou com agenda fechada para encomendas. Porque quero voltar a trabalhar nos meus projetos autorais. Também tenho a série Vozes Indígenas, que são várias ativistas que eu ilustro. Mas quero fazer mais na pegada de um projeto recente que eu lancei que foi o Tarô Amazônida, do MAR. Então quero explorar mais esse lado fantástico. E já fiz muito trabalho comercial nestes últimos anos. Tem uma hora que você fica saturada e eu estou nesse processo. Preciso começar a fazer algumas coisas para mim para poder voltar a fazer para os outros.


Ilustração de Souto MC, de Ty Silva, para a série Vozes Indígenas. Fonte: behance.net/tysilva_

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